"Publicar um texto é um jeito educado de dizer: “Me empresta seu peito porque a dor não tá cabendo só no meu..”"
- Tati Bernardi
Pra mim é muito mais difícil publicar alguma coisa, percebem?
Setembro virou agosto e agora que acabou eu precisei admitir isso. Setembro não foi o mês das coisas bonitinhas, das borboletinhas bobinhas e do céu azul que eu perguntava quem tinha pintado daquele jeito. Setembro foi uma tempestade absurda que eu tive que me entregar. Nessa ventania carregada de pingos grossos vieram traições, amores enterrados e desgostos que deviam ter acontecido em agosto. Eu diria pro Nando Reis que eu reparei que o mundo estava ao contrário, mas não quis admitir. Mentiras foram gritadas aos quatro cantos que compõe salas e aos quatro ventos. Pessoas se calaram com lágrimas porque responder a altura era politicamente inaceitável quando se agredia pessoas. Comunicação e Expressão, com agressão. Pra quê?

A Leitura e Eu: um caso sério.
Gabriela da Silva
O primeiro encontro é sempre o mais angustiante. É aquele que te toma por inteiro e te enche a barriga de borboletas hiper-ativas. Comigo não poderia ser diferente. Eu, como uma boa ariana, ao receber a notícia de que aprenderia a ler entrei em estado de êxtase. A mochila estava pronta, o uniforme passado e o lanche na geladeira, tudo pronto, mas eu não conseguia dormir, a ansiedade era enorme, mas enfim, fui tomada pelo cansaço. Ao amanhecer, lá estava eu, prontinha, impecável e alerta, esperando que minha mãe acordasse para podermos sair de casa. Os minutos pareciam horas. Assim como os minutos, o caminho cresceu quilômetros. Até que chegamos. Sentei-me comportadíssima e atenta, e então, começou: L + E + I = LEI; T + U = TU; R + A = RA.
Lembro que foi um tempo tentando ler placas de trânsito, letreiros e tudo que aparecia em minha frente, até que, em um final de semana, meu pai chegou com vários gibis, e assim, comecei a me prender em meio às letrinhas e ilustrações. Até a quarta série do ensino fundamental eu e a leitura tivemos um relacionamento estável, eu estava completamente apaixonada pela literatura infantil, mas, como todos os relacionamentos, no quinto ano começou a fase da cobrança. Era preciso ler e prestar contas da leitura. Essa é a pior parte de qualquer relacionamento, pois aqui entra em jogo a liberdade de escolha e, ainda, os prazos são exigidos. Ler e resumir. Ler e apresentar. Ler e ilustrar. Ler e musicar. Ler e interpretar. Várias alternativas são lançadas para que o relacionamento não fique chato e monótono, e realmente é empolgante.
De quinze em quinze dias nos dirigíamos até a biblioteca, e, também, de quinze em quinze dias apresentávamos os livros escolhidos. Certa vez eu estava correndo os olhos pelas prateleiras procurando um livro fino e com bastante figuras (vejam só como a periodicidade, o prazo e a obrigação influenciam no gosto pela leitura) encontrei um com o título de “Super Silva” e na hora o peguei. Li e ri muito com as travessuras daquele “heróizinho” e logo formulei uma encenação para a apresentação, arranjei capa e todos aqueles apetrechos de super-heroína e apresentei, essa cena marcou muito, não só a mim, mas todos gravaram aquela figurinha, ainda hoje quando encontro o professor do ensino fundamental ele me aborda com um “Oi, Super Silva!”.
Voltando a linha do tempo... Não mais que na hora, eu entrei para o Ensino Médio e conheci a professora que me inspiraria; Foi ela quem apimentou a minha relação com a leitura. Explico, Angela, nome que contraria a sua personalidade nada angelical, é entusiasmo, genialidade, intensidade, força e exemplo para qualquer um. Eu adorava a forma como ela não tinha escrúpulos. Nunca tive bons professores de português, mas ela veio para dar rumo, para tirar qualquer dúvida e fortalecer a relação.
Angela que me apresentou a Capitu dos “olhos de cigana obliqua e dissimulada”, e ela quem me fez conhecer uma verdadeira interpretação de texto e tirou o limite da pergunta: “O que o autor quis dizer no livro?”. Todos da classe assustaram-se com a exigência da nova professora no primeiro dia de aula: “Leiam Dom Casmurro porque daqui há um mês teremos uma prova sobre o livro” - ainda consigo escutar o tom de voz com que falava. Como assim uma prova? Não haverá mais apresentações? Musiquinhas? Resumos? Encenações? Nada mais, aquela era a hora em que começaríamos a nos preparar para o vestibular.
No decorrer dos três anos do Ensino Médio eu tive contato com alguns dos clássicos da Literatura Brasileira e com a gramática em si, pois antes eu não tinha aprendido nada, era um mero relacionamento inocente, eu não esperava muito da leitura e creio que nem ela botara fé em mim, mas os laços se enlaçaram cada vez mais, usando a redundância para espelhar a intensidade da embolação. Contudo, quando eu cheguei no terceiro ano eu tive que criar coragem para assumir esse relacionamento para todos. Foi difícil. Eu sempre quis ser professora, mas nunca tinha decidido em qual área eu atuaria. O dia da inscrição do vestibular estava cada vez mais perto e a “ansiedade ariana” já me tomava conta. Comecei e colocar no papel todas as áreas e a descartar, até que sobrou só a Língua Portuguesa. Era Ela!
Prestei vestibular. Passei. E o pior estava aqui. Quando olhei o resultado me desesperei, pois sou ‘muito família’, e eu, com meus dezesseis anos, não conseguiria me virar sozinha; fui me inferiorizando cada vez mais, até que a família começou a botar pressão e acabei me mudando. Hoje não me arrependo e me orgulho da força e vontade com que continuo aqui. E, ainda, me orgulho de poder aprofundar minhas leituras e estar recebendo essa aprendizagem. Sinto-me privilegiada e sou! Eu e a leitura? Cito Toquinho: “O nosso caso é um caso sério, porque ele não é sério demais, é um jogo descuidado com cuidados especiais”. Cada vez mais intenso e constante. Eu e ela... (Sem ponto final)
Todos os dias eu tenho que levar minha irmã para a escola e isso me traz algumas lembranças. Quando eu chego no portão, vejo muitos pais deixando seus filhos e lembro quando eu era menor e meus pais se separaram... Foi difícil segurar o choro, o desespero e o medo. Eu acabei ficando sob a guarda da minha mãe, mas continuava vendo meu pai todos os dias, pois estávamos perto um do outro. Até que um dia eu mudei de cidade. Hoje, pelos lugares que eu passo e para onde eu olho, lembro do meu pai e sinto uma saudade enorme que só ameniza nas férias de dezembro quando o encontro. E, assim, se repetem todos os meus anos. Eu aqui, ele do lado de lá e uma saudade, do tamanho da distância que nos separa e do tempo que demoramos em nos ver, que toma conta de mim e dele. Mas eu sei que ele está lá me esperando e isso que me dá forças para seguir, todos os dias.
Por: Ariana e Gabriela.
(Trabalho de português da minha sobrinha que está na oitava série. Consistia em escrever uma crônica sobre algo que acontece no seu dia-a-dia que marca sua vida. Eu e ela escrevemos juntas. Eu a amo.)
"Aquele menino trazia na testa a marca inconfundível: pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por quê, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar."
(Caio F.)